14 de julho de 2009


foto de antónio maia

Por trás do espelho quem está
de olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
e seguiu ao deus-dará
deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama
e tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama
e lá de longe me chama
misturado nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
outros fizeram assim
daí este meu cansaço
de sentir que quanto faço
não é feito só por mim.

_
luís de macedo/joaquim campos "cansaço"



15 de junho de 2009

foto de Eduardo Nunes

"Quis agarrar a ti o mar
Quis agarrar a ti o sol
Quis que o mar fosse maior
Quis que o mar tocasse o sol
Quis que a luz entrasse em nós
inundasse o lado frio
Quis agarrar a tua mão
e descer o nosso rio
Quero agarrar a ti o céu
Quero agarrar a ti o chão
Quero que a chuva molhe o campo
e que o campo seja teu
Para que eu cresça outra vez
Quero agarrar a ti raiz
Quero agarrar a ti o corpo
e eu quero ser feliz...
Quis agarrar a ti o barco
Quis agarrar a ti os remos
que usamos nas marés
quando as ondas são de ferro
Quero agarrar a ti a luta
Quero agarrar a ti a guerra
Quero agarrar a ti a praia
e o sabor de chegar a terra.
Porque o mar tocou no sol
Inundou o lado frio
Porque o sol ficou em nós
e desceu o nosso rio,
Por isso dá-me a tua mão
Não largues sem querer
Quero agarrar a ti o mar
eu quero é viver.
Se tens medo da dor
Vem ver o que é o amor
Se não sabes curar
Vem ser o que é amar
Para ver-te amanhecer,
Quero ver-te amanhecer."
_
tiago bettencourt "o campo"

5 de junho de 2009


foto de hernâni faustino

atravesso a noite com um verso que não se resolve
na outra mão as flores, como se flores bastassem
eu espero, e espero...
...
a chave que abre o céu
daonde caem as palavras
a palavra certa
que faça tudo andar.

_
herbert vianna


1 de junho de 2009


foto de Carlos Silva


Oh, lua branca de fulgores e de encanto,
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo,
Vem tirar dos olhos meus, o pranto

ah, vem matar essa paixão que anda comigo.

Oh, por quem és, desce do céu, ó lua branca,
Essa amargura do meu peito, ó vem e arranca,
Dá-me o luar da tua compaixão,
ah, vem, por Deus, iluminar meu coração.

_
Chiquinha Gonzaga

29 de maio de 2009





quem nos deu asas para andar de rastos?

quem nos deu olhos para ver os astros

-- sem nos dar braços para os alcançar?

_
florbela espanca

28 de maio de 2009

preciso-t

e não sei como dizer-t




Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
_
Eugénio de Andrade

21 de maio de 2009




...
Hoje acabo o desenho das letras
desenho rosto
pronuncio-o e tu és lá
roço nele até à precisão do t
mas o que fica é esta preparação para o beijo
que a vogal me coloca.

Digo o teu nome
os dentes tocam o lábio inferior
e aí começo a saborear-te
toda a boca te trabalha
um som nasal ressoa no crânio
mexe-me.
_
José Maria de Aguiar Carreiro

18 de maio de 2009


photo by hugo lucas

pacientemente à espera de entrar no teu mundo.

13 de maio de 2009



Eu vivo com duas luas
Delas me fiz companhia
Andam cruzadas as duas
E nenhuma me alumia

Atrás da minha janela
Nos lençóis onde me deito
Há uma lua que vela
Escondida no meu peito
A outra dizem que é tua
Nasceu no teu coração
É por isso que esta lua
Só brilha na tua mão
Até quando te insinuas
Quando me chamas baixinho
Eu vivo com duas luas
Cruzadas no meu caminho.
_
João Monge - José Magala

12 de maio de 2009




Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?
_
eugénio de andrade

7 de maio de 2009


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
_
mário Cesariny

6 de maio de 2009


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
_
Alberto Caeiro